a mão no bolso e o distanciamento crítico

[meu primeiro texto crítico/crônica]

[escrito em junho de 2005]

 

A visão pode ser tendenciosa, mas, pergunto, qual a forma mais apropriada de se fruir uma música se não for se jogando nela, isto é, dançando? Tudo bem que para certo tipo de música, a chamada erudita, o mais adequado seria uma apreciação menos corporal e mais auditiva, digamos, mais introspectiva, demandando um determinado nível de elaboração intelectual. Mas se o que se fala aqui é da música eletrônica, a não ser que seja alguma daquelas variações deep, o mais natural, repito, o mais natural é se jogar na música, na vibração das ondas sonoras. E para quem gosta de dançar de olhos abertos existe sempre a possibilidade de fritar, digo, fruir a música em consonância às imagens mixadas ao vivo; mas ainda assim tratar-se-ia de fruição.

De qualquer forma, a não ser que se tome a reação do público como uma hipertrofia da fruição imagética – hipótese que descarto já de antemão – não foi bem isso que aconteceu no último dia do “Fórum Eletronika de Mídia Expandida”. Se o público se fixou na imagem ou não, o que pôde ser visto na maior parte da noite foi mão no bolso e distanciamento crítico: os dois personagens-ídolos-fetiches que tem tomado conta da cena eletrônica em BH. Esses protagonistas chegaram a um nível tal de veneração que, seguindo bem suas personalidades, nada se fala sobre eles, apenas adota-se postura semelhante e, por conseguinte, sustenta-se o semblant all night long.

Se o pessoal avaliou os djs da noite como não sendo dignos de uma “jogaçãozinha mundana”, pra usar um termo mais vulgar, o que importa para a discussão aqui é que o que pode ser percebido na noite belorizontina não é mera contingência ou capricho de uma turma que gosta da postura blasé. Na verdade, se se aprofunda o olhar, percebe-se que tal tomada de atitude toca no cerne da questão da arte contemporânea. Não só é índice da arte dos dias de hoje, como também da configuração dos tempos atuais. E, vale dizer, essa afirmação não é forçosa.

H. R. Jauss, um dos teóricos da Estética da Recepção, defende a idéia de que a experiência da arte tem se transformado cada vez mais numa experiência menos estética – no sentido do sensível, da estesia – e mais filosófica-conceitual. Tome-se como exemplo, apenas pra citar dois nomes, os Dogville da vida de Lars Von Trier e As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino: em que cada obra rende um artigo acadêmico ou dissertação de mestrado.

Segundo aquele teórico, seria o processo de gradual autonomização da arte que teria possibilitado tal mudança na maneira como se produz e se recebe obras de arte desde Duchamp. Trocando em miúdos, o deslocamento dos objetos do cotidiano para o espaço da galeria, isto é, a eleição de objetos comuns ao status de obra de arte coloca questões que a obra por si mesma não é capaz de responder: o que qualifica um objeto qualquer de estético? Qual a distância que separa a minha experiência prazerosa de escovar os dentes de uma experiência estética legítima, digna desse nome?

Como todo mundo sabe, somos netos de Duchamp. Isso que percebemos como arte hoje é invariavelmente condicionado por aquilo que aquele francês fez no início do século passado. As questões colocadas pelo ready-made se agravaram, se aprimoraram ao ponto de hoje mantermos, já de antemão e de modo natural, o distanciamento crítico diante de qualquer obra de arte. Estamos sempre a postos, com o olhar oblíquo e a mão no queixo, para interpretarmos, atribuir sentido, enxergar o conceito que reside por detrás. Olhamos a obra tendo em mente aquela pergunta: o que dá legitimidade a essa obra para que possa ser chamada de arte? Qual atributo lhe dá a dignidade de carregar esse nome?

Chegamos então ao segundo ponto dessa discussão: o que faz a mão no bolso e o distanciamento crítico serem índices dos tempos atuais?

Como se sabe, depois que senhor Freud retirou a inocência de nossos sonhos e nos apresentou o caráter abissal de nosso inconsciente, nada, repito, nada atualmente escapa a nossa razão observadora e crítica, nada deixa de galgar o status de símbolo, nada passa ileso a nossa capacidade, eu diria ansiedade, de tudo interpretar.

Vivemos na idade da interpretação. Tudo pode ser tão decididamente, analiticamente destrinchado em forma de conceito que deixamos de lado a possibilidade de fruir – estesicamente – tanto a obra de arte como a mais pura existência de um dado objeto, palavra ou som. Para continuar com Freud, transformamo-nos numa sociedade de neuróticos. Perdemos a capacidade de fruir, de nos jogarmos no mundo das coisas. Se não perdemos a capacidade, pelo menos, sou forçada a dizer, prefere-se não colocá-la em prática.

Só para lembrar Clarice Lispector: “o que eu não sei do ovo é o que realmente importa”. Às vezes o que importa é não entender, fruir, ainda que as palavras, o conceito, não toquem ou não consigam tocar a coisa. “O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito”.

tristezas

“Se nos fosse possível ver além dos limites de nosso saber e um pouco além da obra de preparação de nossos pressentimentos, talvez suportássemos nossas tristezas com maior confiança que nossas alegrias. São, com efeito, esses os momentos em que algo de novo entra em nós, algo de ignoto: nossos sentimentos emudencem com embaraçosa timidez, tudo em nós recua, levanta-se um silêncio, e a novidade, que ninguém conhece, se ergue aí, calada, no meio.

Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornaram estranhos; porque estamos a sós com o estrangeiro que nos veio visitar; porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou; porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Eis por que a tristeza também passa: a novidade em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, penetrou no seu mais íntimo recanto. Nem está mais lá – já passou para o sangue. Não sabemos o que houve. Facilmente nos poderiam fazer crer que nada aconteceu; no entanto, ficamos transformados, como se transforma uma casa em que se entra um hóspede. Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira para se transformar em nós mesmos, muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento, aparentemente anódino e imóvel, em que o nosso futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando, num dia ulterior, vier a ‘acontecer’ – isto é, quando sair de nós para se chegar a outros – senti-la-emos familiar e próxima. Deve ser assim. É preciso – e a nossa evolução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido – que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito”

rainer maria rilke

à luz

“tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação”

rilke, cartas a um jovem poeta.

[grite aqui]

solidão é da ordem do indizível. e é só nessa condição que ela se mostra, se faz apreender.

estar reduzido a si mesmo, às sensações que nenhuma palavra toca, nem traduz e que, por isso, nenhum outro pode compartilhar.

rilke, sempre ele a falar da solidão, já dizia que estamos indizivelmente sós. enquanto marguerite duras diz o contrário, que a solidão é um tipo de escrita. algo como:

“a partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que perder, aí é que se escreve. ao passo que o livro está ali, e grita, exige ser terminado, exige que se escreva”. “é preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita”. “existe o suicídio na solidão de um escritor. é possível sentir-se sozinho no interior de sua própria solidão. sempre inconcebível. sempre perigosa. sim. um preço a pagar por ter ousado sair e gritar”

“quando um livro inteiro sai de dentro da pessoa, é inevitável o estado particular de uma certa solidão que não se pode partilhar com ninguém. não se pode fazer nada para partilhar isso. é preciso ler sozinho o livro que se escreveu, enclausurar-se no livro”.

talvez o que esteja em jogo é a fundação da própria linguagem, da lógica interna a si mesmo.

os dragões conhecem o paraíso

“Apenas quando cada um de nós sente a verdade, aprecia-a, aceita-a e está pronto a segui-la, é que tudo dará certo. Quando alguém se põe fora da verdade para estudá-la, esse alguém não saberá o que fazer quando algo lhe acontecer. Numa antiga história chinesa, havia um homem que gostava muito de dragões. Ele falava a respeito deles, pintava-os e comprou vários tipos de dragões. Então, um dos dragões pensou: ‘se um dragão real, como eu, o visitasse, ele ficaria muito feliz’. Um certo dia, o dragão verdadeiro esgueirou-se para dentro do quarto do homem e ele não sabia o que fazer! ‘Ai, ai, ai, ai, ai!’. Nem mesmo fugir ele conseguia. Nem mesmo ficar em pé. Por um longo tempo, agimos de modo parecido com o homem que admirava os dragões. Entretanto, não deveríamos ser apenas o amigo ou o admirador do dragão, deveríamos ser o dragão em si. Então, não temeremos dragão algum”.

[de um livro sobre o zen]