duros

Quando somos criança e começamos a despertar para uma consciência dos próprios sentimentos, imaginamos com muita confiança que, na medida em que envelhecermos, conquistaremos maturidade e alguma sabedoria. Neste
pensamento também está incluído a crença de que quando nos tornamos adultos nossos sentimentos serão melhor resolvidos. Eles, os sentimentos
incompreendidos, serão melhor alocados, dissolvidos, transmutados em outra
coisa – talvez até em serenidade.

A verdade é que muitas vezes envelhecemos e não ganhamos nada. Aquelas
emoções que tomavam conta de nós, que nos possuíam e não podíamos nada contra elas, enfim, elas continuam nos habitando. Podemos pouco diante delas. Elas continuam aí, ao menor olhar a um instante do passado.

A verdade é que envelhecemos e nos tornamos mais duros. A dor nos
acompanha. A incompreensão mais íntima do que somos e do que fomos, ela
martela nosso mais secreto sonho, nossa mais despretensiosa respiração.
A memória nos invade em momentos de descuido e não podemos nada contra ela.  Seu efeito é o sentimento de uma certa coação. Ficar refém daquilo que não
engolimos, não digerimos e nem mesmo sabemos os meios de fazê-lo. Trazendo
consigo aquilo que não terminamos de amar, aquilo que não se resolveu em
nosso mais presente sentimento, a memória nos força a sentirmos como seus cativos.

A infância, esse emaranhado de amor, de solidão, de conforto e de sem-lugar.
Somos adultos perdidos em uma atmosfera inebriante e confusa do passado: de
desejo de retorno, de resolução, de desenlace.

Ansiamos a dissolução do engasgo. Ansiamos compreender tanta vontade de
retorno e conforto idealizado – e, nesse movimento, voltamos sempre às
mesmas trilhas difusas do que fomos, do que protagonizamos e ainda não.

Ainda não envelhecemos o bastante para saber lidar com essa vida adulta e
seu excesso de responsabilidades. Seu excesso de si mesmo. Ainda não
tivemos tempo suficiente para parar de desejar reaver aquela atmosfera de
amor, proteção e sentido pleno.

Ainda não envelhecemos o bastante para parar a saudade. Ainda não passou o tempo suficiente para que eu esquecesse o amor de minha avó, para compreender a falta que me faz a casa de meus pais, a falta que me faz a inocência da criança que ama tudo e que, mesmo sentindo tão só e incompreendida, ainda acredita no amor dos seus, que ainda espera.

Tenho esperança de um dia parar de desejar tudo isso.

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