Decantar

DOMINGUEIRA
No livro que li, também dizia que, “se disser a alguém ‘eu te amo’, então, honre isso até seu último suspiro”

Decantar

MARIANA LAGE
Publicado no Jornal OTEMPO em 27/05/2012
Querida mãe,há cerca de dois meses, sofri um aborto. De repente, assim, sem mais, fui expelida de um espaço aconchegante que eu habitava até dois meses atrás. Fui expelida a contragosto, e agora aquele espaço acolhedor não mais me circunda. Onde antes eu encontrava “eu te amo”, abraços afetuosos, escuta irrestrita, cuidado e partilha, há hoje esse vazio. Por isso, eu chorei. E às vezes ainda choro – ainda que tenha que ser em segredo.

Caço em minha memória restos de lembranças… Não, na verdade, me parece ser o contrário. Fragmentos da minha memória me caçam durante o dia, me cutucam o coração e testam minha resistência em aceitar o vazio.

Quando nos ensinaram que amor acaba dessa forma?

No livro que li, estava escrito que “uma pessoa consciente de Deus é alguém que consegue honrar suas palavras sob quaisquer circunstâncias”. No livro também dizia que, “se disser a alguém ‘eu te amo’, então, honre isso até seu último suspiro”.

Me pergunto quem nos disse que, quando saímos de uma relação, temos que passar imediatamente do amor à indiferença, do cuidado à distância e à intolerância. Será que, de fato, ninguém nunca nos ensinou que poderíamos amar de uma forma diferente, sem extremismos e com honra diante do que foi vivido?

Em qual parte dos contos de fadas que nos contaram durante nossa infância estava escrito que, quando concluímos que não podemos ou não conseguimos mais viver juntos, é preciso abandonar o outro, isolar-se dele e, em especial, esquecer-se do passado tão rápido quanto possível? Onde estava escrito nos nossos cadernos escolares que, quando a relação acaba, temos que, mais que depressa, também sufocar, estrangular se preciso, o amor que sentimos?

“Coloque os punhos em volta do seu amor e retire dele todo o ar” – me explique, por favor, de onde retiramos esse comando a pautar todas as nossas relações afetivas que, por um motivo qualquer, chegaram à separação.

Desconfio, mãe, que o desafio de um novo aprendizado em torno de relacionar-se esteja em sermos dignos com o que vivemos, e, então, deixarmos que o outro se vá, sem que precisemos matá-lo dentro de nós.

Desconfio também que toda essa história que nos contaram, depois de adultos, sobre fazer o luto esteja um pouco distorcida. Desde quando assumir a perda significa apagar o passado? Se não fazemos isso com nossos entes queridos que se foram, por que fazer com aqueles que amamos e ainda respiram? Não deveríamos ter que esquecer que amamos um outro apenas porque nossa incapacidade de diálogo e de negociar com nossas próprias dificuldades vigorou.

Deveríamos, antes, aprender a realocar esse sentimento. Ressignificá-lo, talvez, mas, sobretudo, lidar melhor com algo que habita nosso espaço mais íntimo.

Sem querer contrariar o poeta, talvez devêssemos aprender que escrever cartas sentimentais ou falar de amor não é um ato ridículo quando estamos com o espírito em paz e somos sinceros em relação aos nossos próprios sentimentos, independente de o “felizes para sempre” e o “eterno enquanto dure”não terem sido exatamente da forma como imaginávamos. E, se deixássemos de lado a premissa que assevera como ridículo o ato de falar de amor, talvez estaríamos mais livres para amar o mesmo outro que já amamos, mas, agora, de forma radicalmente nova. E descobrir que forma seria essa depende da nossa entrega ao tempo, senhor de todas as coisas, mas, sobretudo, à nossa própria alma.

Com amor,
sua filha

Mariana Lage é jornalista, mantém o blog diariosdemetacritica.wordpress.com e divide este espaço com Lobo Pasolini e Jack Bianchi

Um falcão no punho

“Herbais, 16 de Agosto de 1981.

Hoje, passada a madrugada, continuei o dia com a minha parte mais sombira; soltaram-me as minhas recordações, presentes, passadas e futuras, e não encontrava caminho linear entre elas.
Não só importa escrever sucessivamente, mas saber quem me sucederá numa constelação de sentidos.
O que é a descendência?
A seiva sobe e desce numa árvore, estende-se pelos ramos, e é regulada pelas estações; eu e a árvore dispomo-nos uma para a outra, num lugar por nomear. Este lugar não tem uma significação de dicionário, não transmigrou  para nenhum livro.

Agora o sol o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras. Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser” (Lhansol, Um falcão no punho, p. 47).

Pular e se esfolar

Pula que a asa nasce. E, de fato, nasce. Mas entre o salto e o planar, a mente vacila. Ela quer terra sob os pés. Cadê as certezas?

Antes de pular, não são poucos os “experientes de fato” que avisam: “não vai ser fácil, mas é tão, tão maravilhoso!” Você, uma ave principiante, se concentra no “é tão maravilhoso” e se entrega. E, depois disso, então, percebe que, depois que pulou, o voo te exige tudo. A total entrega. E, de braços abertos, pode fazer o quê? Fechá-los?

Pula que a asa nasce! E, inocentemente, você acreditou que o desapego poderia te exigir que abrisse mão só até onde fosse confortável. Neste momento, é o vento quem te esfola, e, não, a queda. Você se pergunta: “Agora que eu já pulei, terei coragem de voltar a me afixar em terra firme?”

A solidão do pulo é a solidão da fé. Quando você pratica o salto que separa razão de crença, ninguém está consigo. Ninguém o entende e ninguém compartilha o que passa com você. É a história da ave-mãe que só aponta e que nunca, nunca voa por ou com qualquer infante. Essa é a história de Abraão, não é mesmo? Ou, pelo menos, foi assim, como contou aquele filósofo dinamarquês, o Kierkegaard. O salto da fé é a ação solitária de ir profundamente em si mesmo e não encontrar nada além disso: o vazio e a fé. A sensação de que alguma coisa tem que fazer sentido. E que, por mais estúpida que seja a forma como enxergamos a existência humana, esse sentido não pode ser assim tão pejorativo. Em suma, ou se acredita na concretude das asas ou… “deixa isso tudo pra lá”

Depois de arquitetar o voo, com suas experiências anteriores, você percebe que pular é algo bem mais complicado. Não há tela de segurança. Não há qualquer malabarista do outro lado do picadeiro te oferecendo duas mãos e o equilíbrio e a força do próprio corpo para poder te sustentar. O real desafio é acreditar que é o voo quem vai te sustentar. Que os braços abertos são o seu equipamento de segurança. Abra o peito, bebê! Depois que você pulou, não há o que fazer!

Mais: para se ver sustentado, é preciso se ver leve. Se desvencilhar de tudo, tudo que não lhe serve mais. É bonita essa frase, não? Desvencilhar-se de tudo o que não lhe serve! E você pensa: “bem, vou abrir mão de alguns livros e xerox, de algumas roupas…”

E, de repente, você, em pleno voo, é atropelado pela rota de um vento que lhe exige algo que, até então, você julgou inconcebível. “Abandone tudo”, é o que diz o vento. E você, no seu puro romantismo, ou sob a regência do planeta Vênus, acredita que ainda poderia habitar esse espaço confortável que lascivamente habitou.

“Abandone tudo”, reitera, a cada dia, o vento, batendo fortemente contra o rosto e o corpo. O voo exige a entrega. E estando você de braços aberto, o que é possível fazer? Retroceder? Aliás, você se perguntou, antes de pular, onde mesmo estava o seu compromisso?

Nesse processo de desvencilhar, você percebe que nem o romantismo lhe serve mais. Ele não sustenta seu voo, não sustenta seu compromisso. O romantismo de se apegar ao que é maravilhoso, deixando-se de lado a parte da frase que asserta o preço a pagar, te ludibria. Cria uma névoa.

Antes mesmo de o seu compromisso ser testado em sua base, você, com sua fantasia, vai lá na frente e imagina os ganhos obtidos. Ao pé do ouvido, o romantismo te diz, numa voz sussurrante: “não preste atenção ao vento, ele vai te machucar, mas vai passar logo, logo”. E, com o sussurro sedutor, você se esquece de que o importante não é passar logo, mas, antes, o passar, seja da forma como tiver que ser. É o processo de pular e se esfolar que importa.

Pula que a asa nasce e aprenda a ser livre com o infinito. Funda-se com o vento que te sustenta. Esta é a lição da ave, tão difícil para os seres humanos.

Mariana Lage é jornalista. Ela mantém o blog diariosdemetacritica.wordpress.com e divide este espaço com Lobo Pasolini e Jack Bianchi

Publicado na coluna Domingueira, do caderno Pandora, no Jornal OTEMPO em 06/05/2012