Decantar
Caço em minha memória restos de lembranças… Não, na verdade, me parece ser o contrário. Fragmentos da minha memória me caçam durante o dia, me cutucam o coração e testam minha resistência em aceitar o vazio.
Quando nos ensinaram que amor acaba dessa forma?
No livro que li, estava escrito que “uma pessoa consciente de Deus é alguém que consegue honrar suas palavras sob quaisquer circunstâncias”. No livro também dizia que, “se disser a alguém eu te amo, então, honre isso até seu último suspiro”.
Me pergunto quem nos disse que, quando saímos de uma relação, temos que passar imediatamente do amor à indiferença, do cuidado à distância e à intolerância. Será que, de fato, ninguém nunca nos ensinou que poderíamos amar de uma forma diferente, sem extremismos e com honra diante do que foi vivido?
Em qual parte dos contos de fadas que nos contaram durante nossa infância estava escrito que, quando concluímos que não podemos ou não conseguimos mais viver juntos, é preciso abandonar o outro, isolar-se dele e, em especial, esquecer-se do passado tão rápido quanto possível? Onde estava escrito nos nossos cadernos escolares que, quando a relação acaba, temos que, mais que depressa, também sufocar, estrangular se preciso, o amor que sentimos?
“Coloque os punhos em volta do seu amor e retire dele todo o ar” – me explique, por favor, de onde retiramos esse comando a pautar todas as nossas relações afetivas que, por um motivo qualquer, chegaram à separação.
Desconfio, mãe, que o desafio de um novo aprendizado em torno de relacionar-se esteja em sermos dignos com o que vivemos, e, então, deixarmos que o outro se vá, sem que precisemos matá-lo dentro de nós.
Desconfio também que toda essa história que nos contaram, depois de adultos, sobre fazer o luto esteja um pouco distorcida. Desde quando assumir a perda significa apagar o passado? Se não fazemos isso com nossos entes queridos que se foram, por que fazer com aqueles que amamos e ainda respiram? Não deveríamos ter que esquecer que amamos um outro apenas porque nossa incapacidade de diálogo e de negociar com nossas próprias dificuldades vigorou.
Deveríamos, antes, aprender a realocar esse sentimento. Ressignificá-lo, talvez, mas, sobretudo, lidar melhor com algo que habita nosso espaço mais íntimo.
Sem querer contrariar o poeta, talvez devêssemos aprender que escrever cartas sentimentais ou falar de amor não é um ato ridículo quando estamos com o espírito em paz e somos sinceros em relação aos nossos próprios sentimentos, independente de o “felizes para sempre” e o “eterno enquanto dure”não terem sido exatamente da forma como imaginávamos. E, se deixássemos de lado a premissa que assevera como ridículo o ato de falar de amor, talvez estaríamos mais livres para amar o mesmo outro que já amamos, mas, agora, de forma radicalmente nova. E descobrir que forma seria essa depende da nossa entrega ao tempo, senhor de todas as coisas, mas, sobretudo, à nossa própria alma.
Com amor,
sua filha
Mariana Lage é jornalista, mantém o blog diariosdemetacritica.wordpress.com e divide este espaço com Lobo Pasolini e Jack Bianchi